Retrospectiva
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Professora Cleunice e
seu marido Otávio
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1- Uma vez tendo você e seu marido decidido pela edição do Método Professora de Papel, quais foram as maiores dificuldades encontradas para dar início ao projeto?
R: O desconhecimento dos caminhos para chegar às autoridades educacionais. Pensávamos que bastava o trabalho ser comprovadamente bom para chamar a atenção dos mandantes. Puro engano! Não sabíamos que precisávamos de apadrinhamento, de um nome de peso que nos recomendasse.
E, até hoje estamos sem este nome de peso, sem este QI. As dificuldades da época portanto, continuam dificuldades hoje.
2- Como fizeram para levantar recursos para os serviços de impressão dos primeiros livros?
R: Não tivemos dificuldade. O Otávio tinha alguns meios e, como professora, meu salário da época era bem mais substancioso. Procuramos uma gráfica e encomendamos os primeiros exemplares e pagamos sem maiores sofrimentos. É verdade que o número desta primeira impressão foi bem modesto: 150 exemplares do Manual da Professora e 150 Manuais de Aluno. A primeira edição foi inteiramente doada às professoras que já o usavam e às que desejavam aplicar o método.
Depois desta impressão, eu achei que tinha feito minha obrigação, que minha missão estava cumprida e fim!
Que nada! Foi aí que tudo começou de verdade, porque as 150 usuárias iniciais espalharam a notícia e a cada dia surgia mais e mais gente querendo livros. Foi uma loucura porque aí, nos faltava dinheiro, realmente, para satisfazer a demanda.
3- De que forma o método começou a se propagar?
As professoras do Lauro Rocha (minha escola) passaram a me ajudar na experiência e, impressionadas com os resultados, passaram a comentar com outras alfabetizadoras de Mirassol. Estas outras quiseram experimentar e vendo os efeitos incríveis, comentavam com professoras de outras cidades e o círculo foi sendo aberto em todas as direções. Começou a chover pedidos de alfabetizadoras de outras cidades. Chegou a tal ponto, que tive de recorrer a uma gráfica, pois não dava conta de datilografar e mimeografar para tanta gente. Depois a segunda impressão, já com 1.000 exemplares; depois a terceira, com 2.000 exemplares, com 3.000, com 5.000 – e daí, só foi crescendo, fazendo até mais de uma edição por ano.
Respondendo à sua pergunta: Não fizemos outro tipo de divulgação, não usamos propaganda alguma. O método se propagou sozinho, boca a boca, abrindo o leque naturalmente.
Hoje está na internet, acessado diariamente por alfabetizadoras do Brasil e exterior. Mas até chegar aí a gente suou
4- Quais foram as primeiras escolas que aderiram ao método e como vocês dois faziam para divulgá-lo?
Inicialmente, não foram escolas. Foram professoras e classes isoladas. Na época, não havendo obrigatoriedade quanto ao uso do Construtivismo, a dificuldade era apenas fazer chegar às professoras a notícia de um método incrivelmente poderoso, fácil e gostoso de aplicar. As alfabetizadoras não se faziam de rogadas e aderiam sem maiores delongas.
As primeiras escolas foram: Lauro Rocha, Anísio Moreira, Cândido Estrela e Edmur Neves, todas de Mirassol.
A primeira cidade de fora foi Cedral. E em Cedral foi minha primeira palestra, onde compareci acompanhada pelas amigas professoras Ciderlei Pastrolin e Darci Seco (in memorian), duas entusiastas usuárias do método.
Depois desta exposição, outras aconteceram em S. José do Rio Preto, Ibirá, Polôni, Macaubal, Tanabi. Ambas as citadas companheiras me acompanharam em todas elas.
Quanto ao Otávio, a primeira apresentação que assistiu foi em Nova Granada. Foi aí que se tornou fã de carteirinha e nunca mais deixou de me acompanhar nos cursos que dei.
Viajamos juntos, Otávio e eu, por mais de 400 municípios de 7 estrados dando palestras. Destas, duas foram em Secretariam Estaduais de Educação. Todos os que assistiram se apaixonaram – mas já estava aos poucos, surgindo a primeira e única dificuldade: a chegada do Construtivismo e o autoritarismo dos que exerciam o poder e que obrigavam o seu uso (autoridades que foram péssimas professoras, que jamais viram uma criança de perto, mas que ditam normas de alfabetização, obedecendo ao ditado: “Quem sabe faz; quem não sabe ensina”).
5- Descreva uma (s) experiência (s) que marcou vocês dois quanto à eficiência do método?
Na classe da Profª Dalva, a primeira aluna deficiente auditiva (Daniela Ludin) aprendeu a ler, escrever e falar com o uso do método. No ano seguinte, foi a vez da Profª Nilda passar pela mesma experiência, com aluna nas mesmas condições. Eu nem sabia que o método era capaz de alfabetizar DA. Na Escola Índia Vanuire na cidade de Tupã, uma classe inteira de adultos deficientes auditivos, aprendeu a ler e escrever com o uso do método.
Na classe da Maria Ângela, três alunos destinados a classe de Deficientes Mentais aprenderam tão bem, que passaram, diretamente, da primeira para a terceira série!!!
Na classe da Ciderlei, uma aluna ouvia as historinhas e aprendia o som e a forma das letras, aprendia sílabas e palavras e orações. E, em casa, brincando de escolinha, ensinava a irmãzinha. Assim brincando, a menina de 7 anos alfabetizou a outra, de 5!
6- Qual a reação das Secretarias de Educação Municipais ao perceberem a eficiência do método, uma vez sendo contrário ao padrão construtivista vigente?
Não digo com mágoa, mas digo para que a História o registre:
No final de uma palestra que dei em Guarulhos em 2003, uma professora me disse: “Puxa vida, Mirassol deve se sentir feliz por ter sido berço de método tão incrível! Certamente, as autoridades de sua cidade se sentem orgulhosas com a presença de educadora como você!” E respondi: “Pois acredite: As autoridades de Mirassol querem me ver pelas costas porque eu atrapalho a péssima alfabetização que elas estão patrocinando”
E é verdade. Na minha cidade, hoje me ignoram completamente. As antigas usuárias se aposentaram, outras morreram. O magistério atual mirassolense desconhece meu método e não deseja conhecer, faz-se surdo a quem fala nele. Houve uma Secretária Municipal de Educação que proibiu minha entrada nas escolas de minha cidade!
Tivesse eu nome estrangeiro de pronúncia difícil, fosse eu da Suíça, Estados Unidos ou Argentina, mesmo que o método fosse um fiasco, eu seria endeusada. Mas não aceitam professora de nome comum, de família modesta, mesmo que seu método seja o maior fenômeno em alfabetização.
Como Jerusalém, matam seus profetas e buscam profetas de outras terras, pagando caro por eles.
7- Por que não houve acordo entre você e as editoras que se interessaram em publicar e distribuir o método?
Quando levei o método às editoras, o Construtivismo estava no auge e os editores não tiveram coragem de investir.
Hoje, já não procuro ninguém. Eu mesma estou levando o projeto à minha maneira, mesmo que mais devagar.
Mas aceito parcerias. Se você deseja ser parceiro do “Professora de Papel”, me ligue: 017-242 1437.
8- Por que você acha que o construtivismo não é eficiente na escola fundamental brasileira? Quais fatos demonstram claramente esta ineficiência?
Quem reprova o Construtivismo não sou eu. São os fatos:
“Diploma de mentira, prejuízo de verdade” (Folha de S. Paulo – 31/03/96)
“Avaliação escolar é trágica – diz MEC” (Folha de S. Paulo – 26/11/96)
“Aluno acaba segundo grau sem saber o primeiro” (Folha de S. Paulo – 27/11/96)
“85% têm dificuldade com multiplicação na 8ª série” (Folha de S. Paulo – 09/06/98)
“Alunos de 1º grau fracassam em teste” (Folha de S. Paulo – 10/06/98)
“Alunos de 4ª série não distinguem vogal de consoante” (Diário da região – 16/06/99)
“O Construtivismo não foi criado para ser usado na escola” (César Coll - Folha de S. Paulo – 04/08/96)
Há outras manchetes, mas estas aí ilustram bem o que é o Construtivismo. Veja as datas: de 96 a 99. O Construtivismo veio para o Brasil em 85 e está em vigor ainda hoje. As datas das manchetes se situam bem no olho do furacão, quando Emília Ferreiro estava no auge.
O Construtivismo é ensino quase casual aproveitando experiências fortuitas sem seqüência, mais ou menos acidentais. Não é método de ensino, não é meio para se chegar à aprendizagem, não é nada! Mas está sendo enfiado goela abaixo!
O ensino vai tão mal, a ponto de se ressuscitar a lei que proíbe repetência! Esta lei foi criada em 1970, quando era obrigatório o uso do Método Globalizado, de Lourenço Filho. O Globalizado foi uma teoria lindíssima que não funcionou. E deixou analfabetos aos baldes. Hoje, a História se repete: O Construtivismo está fazendo tantos estragos, que foi ressuscitada a lei do “empurrar sem saber”.
Continuo respondendo através de fatos:
Uma avó mirassolense que prefere o anonimato, me contou: “Há 4 anos, minha neta entrou na 1ª série e, em outubro, não lia nem escrevia. Fui à escola reclamar, mas me disseram que ela estava indo bem. No final do ano, a menina estava ruim do mesmo jeito. Fui à escola pedir que a reprovassem. Responderam que a lei proíbe reprovações; que ela não sabia ler, mas já entendia de política, eleições, greve, guerra, sindicalismo, MST. E ela foi empurrada de uma série para outra.. Só pra mostrar o estado de ignorância da minha neta, veja só: Ela estava na 3ª série e, numa loja, mostrei-lhe a palavra ALVARÁ e pedi que lesse. Ela não soube. Tampei, com a mão a palavra e mostrei só a primeira letra e pedi que lesse. Pois nem a letra “A” ela identificou. Fui à escola, falei cobras e lagartos mas disseram que, na 4ª série, ela pegaria impulso. E quando ela estava na 4ª série, sabe o que aconteceu? Mandaram-na de volta para a 1ª série! Não fui reclamar, porque teria de levar um revólver e entrar dando tiros. Ela não podia perder um ano com reprovação e acabou perdendo quatro! E vai perder mais ainda, porque estamos em julho e ela não identifica uma única palavra!”
Outro: Numa palestra em Mauá, na Escola Barão de Mauá, onde dei 2 palestras a alunas de Magistério que aprendiam a alfabetizar através do Construtivismo, ao final da exposição uma aluna do 4º Magistério se levantou, virou-se para o público e declarou em voz alta: “Aprendi hoje, em 3 horas de palestra, muito mais do que em 4 anos de curso!”.
Outro: Atendendo professoras através do telefone, tenho ouvido confissões arrepiantes. A maioria reclama que alunos de 4ª série não sabem ler nem escrever. Produtos do Construtivismo.
Presentemente, outro fenômeno está acontecendo: Estou alfabetizando uma classe de idosos. A experiência foi tão boa, que acabei criando um projeto para alfabetização de pessoas da terceira idade. Chama-se Projeto PLIM (Primeiras Letras na Idade Madura). São 12 as classes abertas e outras estão sendo formadas. Pois tenho uma aluna, a Neide, que está freqüenta a EJA (Educação para Jovens e Adultos) na Escola Lauro Rocha e, através do Construtivismo, não aprendeu absolutamente nada. Agora, na 3ª série, está aprendendo a ler e escrever com a ajuda do “Professora de Papel”, na minha classe!!!
Outra aluna, a Leonídia, acabou a 4ª série na EJA do Edmur Neves. “Aprendeu” através do Construtivismo e agora está na minha classe para ser alfabetizada desde o comecinho! Perdeu 4 anos sem aprender coisa alguma!
Na classe da Regina – uma das alfabetizadoras do Projeto PLIM – , há mais 3 alunas que saíram do Construtivismo do EJA para aprender a ler e escrever com o Professora de Papel.
E diz César Coll, colaborador de Jean Piaget – assim como Emília Ferreiro – “O Construtivismo não foi criado para ser usado na escola!” (Folha de S. Paulo – 04/08/96)
9- Como você vê a difusão do método pela internet, inclusive internacionalmente?
Beleza! Antes, o método ia mais devagar, num trabalho de boca a boca entre as usuárias. Hoje, com a difusão na internet, a todo momento do dia há alguém conectado tomando conhecimento do material.
Japão, Itália, Portugal e Estados Unidos estão adquirindo o método através da internet para ensinar em colônias de brasileiros residentes naqueles países.
Obrigada, Adolfo!
10- Quais os planos ou expectativas para dar prosseguimento ao método, uma vez que sua eficiência é evidente e, no entanto, esbarra nas dificuldades de continuar sendo independente?
Só Deus sabe. Acredito firmemente que ELE encaminhará este projeto, uma vez que “Professora de Papel” pertence a ELE. Fui apenas o instrumento para trazer à terra este método incrível de ensinar alunos com deficiências no aprender.
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A AUTORA
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