Professora cria novo método de alfabetização
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Matéria publicada no jornal Diário da Região de São José do Rio Preto, edição de domingo, dia 1 de julho de 1990
Na busca de uma fórmula que facilitasse ao máximo a alfabetização de alunos, uma professora primária de Mirassol, Cleunice Orlandi de Lima, passou vários anos estudando qual seria o método mais indicado, e criou a “Professora de Papel”. É uma cartilha historiada, onde estuda-se primeiro a letra, a sílaba, a palavra, com base no princípio de que estas, juntas, formam palavras e orações. “Não o contrário, como ocorre nas cartilhas tradicionais, através das quais os alunos têm dificuldade de alfabetização” — explica a professora.
O método “Professora de Papel” é historiado-fonético. O aluno aprende através da história, o som de cada letra; aprende a ligá-la à letra seguinte, formando sílabas. Dessa forma, consegue escrever as palavras de modo correto, sem omitir letras. A cartilha é dividida em suas partes, e todas as palavras semelhantes no som e na escrita, foram separadas, como o X e o J, o F e o V, o T e D, o B e o D.
São 69 histórias que ensinam desde a primeira vogal até a última dificuldade ortográfica da língua. Na primeira parte, não se fala em parágrafo, letras maiúsculas ou letras de forma. Nem mesmo em ponto final. “As cartilhas tradicionais enfocam os encontros vocálicos como oi, ia, ei, ou, já nas primeiras lições, e as crianças não apreciam isso” — diz Cleunice Orlandi. Na cartilha de sua autoria, o encontro vocálico se dá também através de uma história quando as irmãzinhas — vogais a, e, i, o, u — se encontram para conversar.
MÍMICA DOS LÁBIOS
A professora Cleunice Orlandi observa que “as crianças conseguem mesmo escrever ditados mudos vendo apenas os gestos labiais da professora, com o som retido de determinada letra. É a mímica dos lábios. Este método oferece a facilidade de aprendizagem mais rápida, pois o aluno pode pular etapas por si só, conseguindo ler palavras de lições posteriores, ou em jornais e revistas, apenas pronunciando o som de cada palavra, e ligando-a à seguinte”.
Segundo ela, o método beneficia até mesmo crianças surdas-mudas. “As deficientes auditivas leves, podem aprender a ler nos lábios das professora, aquilo que não consegue ouvir: as deficientes de dicção, ao colocar língua, dentes e lábios, na posição correta, conseguem eliminar, em parte ou totalmente, suas dificuldades de falar”.
Em Rio Preto, a escola da rede oficial onde a cartilha “Professora de Papel” está sendo aplicada por alguns professores, é a “Antonio de Barros Serra” e, com sucesso. Pelo menos é o que garante a professora Nilda Torres, que leciona na 1.ª série do 1.º grau daquela unidade. Ela diz que este é o segundo ano que alfabetiza com o “Professora de Papel”, e que os resultados não poderiam ser melhores. “O rendimento da grande maioria dos alunos é fantástico. Os alunos aprendem bem e com maior facilidade. Em tudo que ensinamos contamos história. Até o ponto final tem a sua história. De tanto ouvir e fazer histórias, os alunos adquirem uma capacidade incrível de desenvolver a redação”.
Adriana é uma das alunas da professora Nilda Torres. Ela é surda-muda e, de acordo com as informações da professora, tem apresentado rendimento muito bom no seu histórico escolar. “Está sendo alfabetizada normalmente, juntamente com todos os demais alunos da classe, sem ter que ser deslocada para classes especiais” — revela. O caderno de Adriana é um dos mais caprichados e acompanha o ritmo normal da classe.
As letras choram, ficam doentes, têm pai e mãe
Cada letra da Cartilha “Professora de Papel” é personalizada. Elas choram, brigam, xingam, ficam doentes, têm pais e mãe. Têm casa em pleno centro urbano, com ruas, carros, jardim. O texto quando não é humorístico tem fundo moral. Cleunice Orlandi conta que começou a elaborar a cartilha em 1984, mas que o primeiro lançamento ocorreu em 1987. Está agora na quarta edição, sendo aplicada em escolas da rede oficial de Mirassol (o prefeito da cidade adquiriu milhares de exemplares e doou a alunos), de Rio Preto e outras cidades da região e até mesmo no Vale do Ribeira. O livro da 1.ª série do 1.º grau, que vai dar continuidade à cartilha, já está pronto, e será lançado provavelmente até o final deste ano.
Logo no início da alfabetização, os alunos começam a estudar as letras “a”, “t”, “p”, “m” e “l”, quando já aprendem a introduzir o “m” antes do “p”. Depois, os alunos aprendem a história das letras de sapato de salto alto. É a introdução das letras maiúsculas no início das orações. “Para abrir a porta da frente, ou seja, as orações, as letras usam sapato de salto alto. “A letra é chamada maiúscula porque ficou maior”, diz a professora Cleunice. Em seguida entram as vogais restantes e outra dificuldade que é o “m” no final da palavra.
Os alunos vão conhecer depois o jardim da casa das letras. É quando aprendem a deixar parágrafo nas orações. Na lição, os alunos aprendem que a margem vermelha da folha do caderno é a cerca da casa, o espaço da margem é a rua onde passam os carros, o jardim é o espaço que deve ser deixado para o parágrafo.
Quem não deixa parágrafo pisa no jardim e mata as plantas. Tanto que os alunos fazem desenhos no espaço do parágrafo.
Para ensinar o til aos alunos, a cartilha conta a história do resfriado da Ada. Nesse caso, o til é a bolsa de água quente que o tio das letrinhas colocou na cabeça dela para aliviar o resfriado.
O retrato das letras introduz as letras de forma. As outras consoantes são apresentadas numa segunda parte da cartilha, nas quatro formas. E assim por diante.
“O método ‘Professora de Papel’ não valoriza a palavra chave, como fazem outros métodos e cartilhas. Criança alfabetizada por este método não troca letras e nem faz perguntas como: ‘é o ta do dado ou do tatu?’ ‘é o fa da vaca?’” Estes vícios de troca são formados pela valorização excessiva da palavra chave, onde a criança se prende a ela, deixando de conhecer o som de cada letra em particular. Aqui, a palavra só é chave à medida que, unindo as letras já conhecidas da nova lição, dá-lhes um significado”. Explica Cleunice Orlandi de Lima.
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